Entre o silêncio e a resistência: a ausência do Orgulho LGBTQIAPN+ na agenda institucional de Pedro Leopoldo
No mês marcado pela luta por direitos e memória, ausência de manifestações institucionais e veto a projeto municipal colocam em debate o reconhecimento da comunidade LGBTQIAPN+ na cidade
Por Luiza Ferreira Ferraz
Publicado em 07/07/2026 19:00
Politica
Foto: Reprodução/Instagram/paradapl/@andresanthos_teoqueer

O mês de junho é popularmente reconhecido no Brasil por suas datas comemorativas e festividades, como o Dia dos Namorados e as festas de São João. Para muitos, é considerado o mês do amor, pois é um símbolo presente em grande parte das celebrações. Todos os anos, o comércio, as marcas e os órgãos públicos se mobilizam para transformar esse período em uma época de festa e memória.

Globalmente, o sexto mês do ano também representa um período de resistência e afirmação de direitos. O Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ surgiu a partir de décadas de mobilização contra a violência e a discriminação sofridas por essa população. A escolha de junho faz referência à Rebelião de Stonewall, ocorrida em 28 de junho de 1969, em Nova York, data que hoje marca o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+.

Segundo o artigo "Nosso Stonewall", publicado na revista "A 50 Anos de Stonewall, A Revolta Continua", os protestos começaram após uma batida policial no bar Stonewall Inn, que tinha um público formado majoritariamente por pessoas LGBTQIAPN+. Na ocasião, frequentadores reagiram à violência policial e deram início a uma mobilização que se estendeu por quatro dias e se tornou um marco histórico na luta por direitos civis.

Mais do que um episódio de resistência, Stonewall simbolizou o surgimento de um movimento internacional que passou a reivindicar o direito de existir sem medo, combatendo a violência, a discriminação e a invisibilidade. O orgulho, nesse contexto, tornou-se uma resposta à repressão e uma afirmação da identidade de pessoas que, durante décadas, foram ensinadas a esconder quem eram.

Quase seis décadas depois, embora importantes avanços tenham sido conquistados no Brasil — como o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) —, a violência continua sendo uma realidade. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) mostram que somente no primeiro semestre de 2024 foram registradas 33.935 violações contra pessoas LGBTQIAPN+.

Em um cenário como esse, o simbolismo do amor no mês de junho ganha novos significados. Mas, afinal, para quem esse amor também se transforma em reconhecimento?  Enquanto campanhas e a divulgação de eventos costumam ocupar espaço nas agendas institucionais, a reportagem verificou que, no Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte, os canais oficiais das prefeituras não registraram manifestações públicas relacionadas ao Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ em 2026.

Entre o reconhecimento e  a política pública

Em Pedro Leopoldo, essa ausência também ocorre em um contexto marcado pelo veto ao Projeto de Lei nº 76/2025, de autoria do vereador Gael Silveira Araújo (PT), que propunha a criação da Semana Municipal do Orgulho LGBTQIAPN+ no calendário oficial da cidade.

A proposta previa ações voltadas à conscientização, à informação, ao combate ao preconceito e ao incentivo ao diálogo. Após ser aprovada pela Câmara Municipal, a matéria foi vetada pelo Executivo.

Para o vereador Gael, a ausência de reconhecimento institucional em datas como o Mês do Orgulho representa a perda de uma oportunidade de reafirmação de compromisso público com a cidadania e o enfrentamento à discriminação.

"O papel do poder público é garantir que todos os cidadãos sejam vistos, respeitados e contemplados pelas políticas públicas, independentemente de sua orientação sexual ou identidade de gênero. Quando a administração deixa de se manifestar em uma data como o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, perde-se uma oportunidade importante de reafirmar esse compromisso com o respeito, a cidadania e o combate à discriminação", afirma.

O silêncio que grita

Para o presidente do Conselho Municipal de Políticas para a População LGBTQIA+ de Pedro Leopoldo, Bruno Fernandes, a ausência de manifestações institucionais durante o Mês do Orgulho não é neutra. 

Ele comenta que o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, marca uma das datas mais importantes da história do movimento, e que o silêncio do poder público diante desse período reforça a necessidade de atenção contínua às pautas dessa população.

"É de suma importância que os poderes públicos manifestem apoio à comunidade LGBTQIAPN+ durante todo o ano. Porém, se calar em uma data tão importante demonstra que ainda precisamos lutar muito contra os opressores", diz.

Para ele, quando instituições públicas se silenciam diante de datas simbólicas, isso também produz um posicionamento diante da realidade da população LGBTQIAPN+.

O profissional do serviço social Leandro Araújo reitera a importância dessa manifestação por parte da prefeitura. Na visão dele, quando a prefeitura comunica algo, ela reproduz um símbolo, que é dito em nome de todo o município e, nesse contexto, se manifestar no Dia do Orgulho, é dizer que na cidade a intolerância é tratada como crime. 

“A mensagem se torna um símbolo que alerta o criminoso homofóbico que ali tem uma cidade que se importa. Por mais incrível ou modesto que ele seja, ele é efetivo. Mas quando há a ausência dele, o símbolo se torna um sinal que acena ao oposto. O silêncio é um sinal”, complementa o assistente social. 

Para além do impacto simbólico das manifestações institucionais, Leandro também chama atenção para a forma como diferentes pautas ocupam espaço no calendário público de Pedro Leopoldo. Segundo ele, enquanto eventos de diferentes naturezas recebem apoio e visibilidade ao longo do ano, a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ ainda enfrenta dificuldades para ampliar sua estrutura e participação.

“Estamos com um calendário cristão repleto de eventos na cidade e não sou contra, mas a disponibilidade para a Parada é a mesma? Os organizadores relatam dificuldades todo ano, dentre sérias restrições orçamentárias. A balança não está equilibrada”, afirma.

Para o assistente social, o crescimento cultural da cidade poderia incluir também iniciativas ligadas à diversidade. “Estamos nos tornando uma ‘cidade da música’, com eventos e shows o ano todo, e isso é ótimo, porém podemos crescer a Parada junto com esse calendário. Como podemos não aprender com BH, onde o Carnaval foi ressuscitado na base do leque?”, completa.

Uma luta em movimento

Se, por um lado, a reportagem identificou a ausência de manifestações institucionais durante o Mês do Orgulho em Pedro Leopoldo, por outro, a pauta LGBTQIAPN+ segue sendo construída por meio da mobilização de coletivos, da sociedade civil e de espaços institucionais criados a partir dessa articulação. 

Um dos organizadores da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de Pedro Leopoldo, integrante do coletivo DiverCIDADE e membro do Conselho Municipal de Políticas para a População LGBTQIA+, Otávio Pereira afirma que as conquistas alcançadas pela comunidade são resultado de uma construção histórica.

"Acho que a gente vive um processo de avanços, mas é importante lembrar que essa é uma luta histórica. É um passinho de cada vez. Quando a gente olha para quem veio antes de nós, para as pessoas mais velhas que tiveram coragem de colocar a cara, enfrentar o preconceito e conquistar respeito, percebe o quanto já caminhamos."

Segundo ele, esse percurso também se reflete na realidade do município. Iniciativas como a Parada do Orgulho, promovida pelo DiverCIDADE, ajudaram a transformar essa pauta na cidade, ampliando o acolhimento, o respeito e até a construção de políticas públicas no município. 

O diálogo com o poder público também faz parte desse processo. O coletivo participa do Conselho Municipal de Políticas para a População LGBTQIA+, criado a partir da mobilização da própria comunidade, além de manter interlocução com a Câmara Municipal e outros espaços institucionais. Um exemplo disso, na prática, foi a aprovação, por unanimidade, do projeto de lei que instituía a Semana Municipal do Orgulho LGBTQIAPN+ no município, posteriormente vetado pelo Executivo. 

Mais do que um símbolo

Na avaliação de Otávio, o reconhecimento institucional é parte de uma construção mais ampla de cidadania. Embora manifestações públicas não sejam suficientes para resolver os desafios enfrentados pela população LGBTQIAPN+, elas representam um compromisso simbólico que precisa estar acompanhado de ações concretas. 

“O que buscamos não é ter mais direitos do que ninguém, nem menos direitos. Queremos apenas igualdade de oportunidades, respeito, equidade e a garantia plena da nossa cidadania. Só assim construiremos uma cidade verdadeiramente acolhedora para todas as pessoas", afirma.

Quase seis décadas depois de Stonewall, o significado do Orgulho permanece ligado à resistência, à memória e à afirmação do direito de existir com dignidade. Em Pedro Leopoldo, essa história se encontra com os espaços construídos pelo movimento LGBTQIAPN+ e com os desafios que permanecem para que essa trajetória também seja reconhecida pelas instituições que representam a cidade. 

Até o momento de finalização desta reportagem, a Prefeitura de Pedro Leopoldo não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem sobre a ausência de manifestações institucionais relacionadas ao Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ e sobre o veto ao Projeto de Lei nº 76/2025.

 

Por Luiza Ferraz

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